Durante as gravações do álbum branco, os Beatles ensaiaram músicas que só iriam aparecer mais adiante, nos álbuns "Abbey Road" e "Let it be", e outras que só emergeriam na carreira solo deles, como "Jealous guy", que John Lennon ensaiou com outra letra e outro nome ("Child of nature") e vocês podem conferir ao lado, na coluna "Veja e escute aqui" em gravação, digamos, alternativa. O mesmo aconteceu com "Teddy boy", de Paul McCartney (também ao lado), numa versão diferente da que está no terceiro volume da "Beatles anthology". E tem ainda "All things must pass", de George Harrison... Idem, idem.
O lado quatro do disco foi o que mais fundiu a massa encefálica da rapaziada, na época, pela presença dos oito minutos e 13 segundos de "Revolution 9", algo que nunca tinha sido ouvido fora do restrito círculo da música experimental: meia dúzia de gatos pingados que conheciam John Cage e Karlheinz Stockhausen. Neguim pirou legal ouvindo aquele troço, ainda mais com os neurônios aditivados pelas três letrinhas místicas THC. Neste encerramento, temos quatro canções de John, uma de Paul e uma de George. Interessante o contraste entre ''Revolution nine'' e ''Good night'', que fecha o disco, ambas de John, uma muito louca, outra uma canção de ninar com orquestra. A mesma diversidade se repete para os demais Beatles e a grande conclusão, infelizmente saudosista, é que eram bons tempos em que quatro caras de uma banda faziam um disco de 30 músicas diferentes umas das outras.

Poster gigante de colagens encartado no LP
Revolution – John Lennon – As agitações de 1968 tiveram influências conflitantes sobre John Lennon, que gravou três versões de "Revolution". A primeira, mais rápida e cantada de maneira agressiva, com guitarras distorcidas, foi lançada em um compacto com “Hey Jude”. A segunda, mais lenta, com sopros e guitarra distorcida com menos ataque, abre o lado quatro do álbum branco. A terceira é uma colagem de sons que entrou como a quinta faixa deste lado e falo mais adiante. A letra trata de temas cotidianos daquele ano, como a pregação de uma revolução por setores agressivos da esquerda americana como o Youth International Party e os Panteras Negras. Lennon diz que todos querem uma revolução, mas, se for pela violência, ele está fora. Aos que culpam a Constituição, ele manda que mudem suas cabeças. Aos que levam posters do líder chinês Mao Tse-tung, ele rebate que nada vão conseguir. Em resumo, prega a revolução pela mudança individual de cada um, uma posição utópica que foi criticada pelos setores politizados da época, com a América pegando fogo contra a guerra do Vietnam e as manifestações francesas ainda no rescaldo do maio de 68 (o disco saiu em novembro).
A gravação aconteceu em quatro sessões a 30 e 31 de maio, quatro e 21 de junho: John cantou, tocou violão e guitarra; Paul tocou piano, órgão, baixo e fez vocais; George tocou guitarra e fez vocais; e Ringo tocou bateria. Esta versão tem dois trumpetes e quatro trombones. A guitarra solo fica no canal esquerdo, os sopros no direito, em alguns momentos dialogando com a guitarra no esquerdo, dois trombones ficam marcado, um em cada canal. Os “all right” finais de Lennon passeiam em pan pelos dois canais.
Honey Pie – Paul McCartney – Canção de Paul ao estilo das bandas de jazz dos anos 20, com sopros manipulados para soarem como as antigas gravações em 78 rotações. A história de uma garota do norte da Inglaterra que faz sucesso na América e seu apaixonado a chama de volta. Gravado nos estúdios Trident, nos dias 1, 2 e 4 de outubro, com Paul na voz, piano e guitarra; John na guitarra; George no baixo e Ringo na bateria. Os sopros são cinco saxofones e dois clarinetes. Um verso “now she’s hit the big time”, no princípio, recebeu forte compressão e chiados para soar como num disco antigo.

Savoy Truffle - George Harrison – Esta música é uma homenagem à então fama de chocólatra de Eric Clapton, grande amigo de Harrison, que assaltava caixas de bombons “Good news” que tinham sabores como Savoy truffle, Montelimart, Gingersling, Cream tangerine e coffee dessert, todos citados na letra. Gravada no Trident e em Abbey Road nos dias 3, 5, 11 e 14 de outubro, teve George no vocal com dobra e guitarra, Paul no baixo e Ringo na bateria e pandeiro. Os sopros são seis saxofones – dois barítonos e quatro tenores – que tocaram lindamente o arranjo do assistente de George Martin Chris Thomas. Quando estava pronto, George pediu ao engenheiro Ken Scott que distorcesse o som, o que foi feito injetando os sopros em dois amplificadores que foram saturados e sujaram tudo. Antes de os músicos ouvirem, George pediu desculpas pelo que tinha feito mas explicou que era assim que queria. Eles não gostaram nem um pouquinho, mas estavam ali para fazer o que o autor desejava.
Cry Baby Cry – John Lennon – Canção inspirada num comercial que mandava as crianças chorarem para as mães comprarem uma marca de flocos de milho. A letra foi inspirada em histórias de fantasia a la ‘’Alice no país das maravilhas’’, que John conhecia da infância. Gravada nos dias 15, 16 e 18 de julho, com John na voz, violão, piano e órgão, Paul no baixo, George na guitarra solo, Ringo na bateria e no pandeiro e George Martin no harmônio. No dia 18, os Beatles compareceram à première de “Yellow submarine”, mas também acabaram a gravação com um nova voz de John, vocais e efeitos. Na mixagem, John canta a introdução, o refrão no canal esquerdo, as estrofes no meio, baixo na esquerda, piano e bateria no meio, harmônio na esquerda.

Revolution 9 - John Lennon – começa com um fragmento de Paul cantando algo sobre ser levado de volta por um barco, a seguir um diálogo entre o produtor George Martin e o gerente da Apple Alistair Taylor que se esquecera de trazer uma prometida garrafa de vinho e pede desculpas para Martin. Daí entra uma voz dizendo “number nine” encontrada numa fita que John usou para criar um loop que se repetia ao longo da peça, inspirada nos experimentalismos de gente como Cage e Stockhausen. A colagem foi feita por John e Yoko, com uma força de George, e inclui coisas como um trecho orquestral de “A day in the life”, ao contrário, um mellotron ao contrário, trechos de óperas e sinfonias, John e George falando coisas aleatórias como “the watusi”, “the twist”, “the eldorado”, “economically viable”, “financial imbalance”, “there ain’t no rule for company freaks”. Yoko canta “you become naked” e solta aqueles gritos irritantes. Um engenheiro falou que o “number nine number nine” virou mania na gravadora e as pessoas ficaram semanas repetindo como um mantra.
John levou os funcionários de arquivo e os engenheiros à loucura com sua pesquisa de sonoridades, colagens feitas na base de gilete e cola, loops grandes que tinham que ser segurados com lápis longe dos gravadores e a loucura de jogar tudo isso nos oito canais e fazer a mixagem com efeitos de pan. Nunca uma peça experimental teve o alcance de tanta gente, levada para a casa pelos milhões de compradores do álbum branco.
Depois disso, só restava finalizar o disco com algo bem careta.
Good night – John Lennon – Ringo canta esta cantiga de ninar feita por John para seu filho Julian, de cinco anos. Nos dias 28 de junho e dois de julho, John e Ringo gravaram uma base, que George Martin levou para criar o arranjo de orquestra, gravado no dia 22 de julho por 26 músicos, com o coral dos Mike Sammers Singers, quatro rapazes e quatro moças. Ringo colocou o vocal definitivo nesta noite numa sessão que foi de sete e meia da noite a uma e 40 da madrugada.

That's all folks. Bye bye...
Por: Jamari França
http://oglobo.globo.com/blogs/jamari/default.asp#99136
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